27.3.09


O hábito torna-nos cegos às maravilhas do mundo - indiferentes e inconscientes perante os milagres quotidianos -, embota a força dos sentidos e dos sentimentos - torna-nos escravos dos costumes, mesmo tristes e culpados: suprime a vista, espanto, fogo e liberdade. Escravos, frígidos, insensatos, cegos: tudo propriedade dos cadáveres. A subjugação aos hábitos é uma subjugação da morte; um suicídio gradual do espírito.
O hábito suprime as cores, incrusta, esconde: partes da nossa vida afundam-se gradualmente na inconsciência e deixam de ser vida para se tornarem peças de um mecanismo imprevisto. O círculo do espontâneo reduz-se; a liberdade e novidade decaem na monotonia do vulgar.

(...) O hábito avilta até os actos mais belos e sagrados do homem. O beijo, se se torna gesto usual, não passa de troca de saliva: o amor evacuação de um líquido incomodativo. A mesma oração, reduzida a algaraviada mecância, em vez de hino do coração converte-se em ginástica de memória e dos lábios.
 

excerto de 'Relatório Sobre os Homens'








ponto final.
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♥, às 23:25  +

merci beaucoup
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